Estão supervalorizando derrota do kirchnerismo, avalia historiador

Estão supervalorizando derrota do kirchnerismo, avalia historiador

Neste domingo (27), os eleitores argentinos foram às urnas escolher legisladores que vão renovar a metade da câmara dos deputados e um terço do senado. Apesar de os jornais e sites de notícias nacionais e argentinos terem falado no “fim do kirchnerismo”, na avaliação do historiador Tiago de Melo Gomes, “praticamente todos os grupos estão comemorando a vitória e de alguma forma, todos têm o seu motivo”.

Por Vanessa Silva

Manifestação da Avenida de Maio para comemorar 10 anos da assunção de Nestor Kirchner à presidência da Argentina

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No total dos votos, o partido Frente para a Vitória (FPV), da presidenta Cristina Kirchner obteve 33% do total, atingindo 132 cadeiras no Congresso e 39 no Senado, o que configura maioria em ambas as casas. A grande novidade foi o resultado obtido pela Frente Renovadora (FR), liderada pelo atual prefeito do município de Tigre, Sergio Massa — provável presidenciável às eleições de 2015 e ex-aliado da presidenta — que obteve 16 cadeiras na Câmara de Deputados, com 43.92% dos votos e uma vantagem de cerca de dez pontos percentuais sobre a FPV.

Mas, na avaliação do professor de história contemporânea e da América da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Tiago de Melo Gomes, a questão está sendo supervalorizada. “Há quatro anos, houve esta mesma eleição, e o kirchnerismo [corrente política govenista] obteve esta mesmíssima derrota. Na verdade foi até pior porque eles tiveram a mesma votação de agora, mas tiveram outros grupos bem mais perto deles, não foram majoritários, mas ninguém chegou perto”, além disso, ele aponta que o kirchnerismo é o único partido do país que tem um projeto nacional. Os demais “só existem em uma província, ou só são fortes em uma ou duas”.

Vanessa Silva: Tiago, quais foram suas impressões desta eleição na Argentina?

Tiago de Melo Gomes: Na verdade, praticamente todos os grupos estão comemorando a vitória e de alguma forma todos têm o seu motivo. Cada um com seus argumentos. O kirchnerismo que foi muito apontado como o grande derrotado, na verdade foi o partido que obteve mais votos nas eleições e manteve a maioria no Senado e na Câmara. No final, o kirchnerismo acabou ganhando porque a maioria dos outros projetos [dos demais partidos] ainda é regional. Vários destes partidos só existem em uma província, ou só são fortes em uma ou duas. Então, simbolicamente falando foi uma derrota do kirchnerismo, mas concretamente nem tanto.

Os jornais argentinos, especialmente o Clarín, falam abertamente de uma morte do kirchnerismo e que Cristina já não governa o país…

O Clarín é de uma oposição violentíssima como é a Veja no Brasil. Então eles vão atacar o governo sempre. A grande derrota do kirchnerismo na verdade foi na província de Buenos Aires. Por exemplo, eles perderam feio na cidade de Buenos Aires, mas historicamente o peronismo nunca teve votação importante nesta cidade. A maioria das derrotas já eram esperadas e são condizentes com a história. O kirchnerismo é muito forte no norte, no sul e na província de Buenos Aires.

Há quatro anos houve esta mesma eleição, e o kirchnerismo obteve esta mesmíssima derrota. Na verdade foi até pior porque eles tiveram a mesma votação de agora, mas tiveram outros grupos bem mais perto deles, não foram majoritários, mas ninguém chegou perto.

No caso, esta votação da província de Buenos Aires pode comprometer a eleição de Daniel Scioli, o provável candidato do kirchnerismo em 2015?

Isso é imprevisível. Estas eleições legislativas na Argentina em certo sentido parecem com as eleições para prefeito no Brasil, elas ficam no meio do ciclo presidencial e são usadas para fazer projeções do que vai acontecer dois anos depois, mas geralmente isso não acontece.

Este mesmo discurso foi usado em 2009, quando eles perderam na província de Buenos Aires, perderam na Cidade de Buenos Aires, Córdoba, Santa Fé, e isso não impediu que Cristina ganhasse de lavada em 2011.

É claro que significa um cansaço do kirchnerismo e é uma coisa indiscutível. Mas o efeito disso em 2015 não dá pra prever até porque não se sabe ainda sequer quem serão os candidatos. Os vitoriosos são políticos com expressão local: [Sergio] Massa em Buenos Aires, [Mauricio] Macri na cidade de Buenos Aires, [Hermes] Birner em Santa Fé. São políticos fortes em uma região, mas que não conseguiram se projetar nacionalmente. Então é difícil saber em que medida a oposição vai conseguir projeção nacional porque em 2011 não conseguiu viabilizar uma só candidatura e Cristina ganhou com facilidade.

No domingo (27) foi publicada uma pesquisa de boca de urna do Centro de Estudos de Opinião Pública dizendo que a popularidade de Cristina aumentou e chegou a 52,5%. Por outro lado, a votação de sua força política caiu de 54% para 35%, como apontam diversos analistas. É difícil analisar este cenário…

Acho que essa relação é desonesta porque se está comparando uma eleição presidencial com uma legislativa. Em relação à última eleição legislativa [2009] não mudou nada. Essa comparação é um pouco fraca porque é muito diferente a Cristina se apresentar como candidata e alguém ter o apoio de Cristina. Estas eleições tiveram um viés regional muito forte e é uma disputa província a província. Esse tipo de comparação não se sustenta.

O que significa o crescimento da Frente Renovadora?

É difícil avaliar porque ela ainda é um fenômeno estritamente local. Ela é parte mais ampla deste processo de liderança local, mas que ainda não saiu do âmbito da província. De fato foi um grande feito eles terem conseguido esta vitória, mas Massa passou a maior parte da campanha — e foi a fase em que ele se fortaleceu — se  apresentando como uma pessoa do meio, se consolidou com votos do kirchnerismo porque ainda é identificado como tal. Nas últimas semanas somente que Cristina entrou na campanha e deixou claro que ele não representa essa força. Agora temos que ver até que medida ele se consolida se apresentando como oposição.

A Argentina vive um momento complicado. Quais são os próximos passos de Cristina?

Eu tenho sentido um grande desânimo do governo argentino. Não percebo no discurso, nem na prática, energia para fazer mais renovação. Eles têm batido muito no que já fizeram, mas o que pretendem fazer é ainda imprevisível. Mas há espaço para o governo ganhar a eleição de 2015. Um herdeiro pode ter chance, mas o sinto inerte. Há muita denúncia de corrupção nos últimos tempos. Não se sabe até que ponto estas denúncias são ou não verdadeiras. Nada se provou, mas nem sempre a resposta do governo tem sido satisfatória. Não vejo uma plataforma nova, que o governo possa lançar mão. Mas podem tentar algo no campo social.

Ao acompanhar os fatos na Argentina pela imprensa brasileira, o cenário é de caos. A partir de sua experiência, isso é real ou fantasioso?

Totalmente fantasioso. Eu vou pra lá sempre, já morei lá. O país funciona normalmente. O grande problema é a inflação, o momento econômico não é bom, inspira cuidados, mas só. O partido do kirchnerismo [FPV] é o único nacional que a Argentina tem hoje junto com a União Cívica Radical.

O caos está na oposição. Ela tem vários líderes que não se entendem entre si e não tem projeção nacional. A FPV foi o mais votado nas eleições, tem governadores em cidades importantes. Então falar em caos é delírio completo. Você pode falar que o momento não é bom, que o governo falha na condução da economia, mas esta ideia de caos, de que a economia está parada, isso não existe.

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