EUA agiram para impedir volta de Zelaya ao poder após golpe de Estado em Honduras

EUA agiram para impedir volta de Zelaya ao poder após golpe de Estado em Honduras

A história do golpe de Estado em Honduras, perpetrado contra Manuel Zelaya em 2009, ganhou novos contornos a partir do relato feito pela então secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, em sua autobiografia “Decisões Difíceis”.

No livro, Hillary conta que utilizou seu poder e sua influência política para impedir a volta do mandatário hondurenho ao poder. Possível candidata democrata à sucessão de Barack Obama, em 2016, a ex-primeira-dama diz que também pressionou para que fossem realizadas eleições em Honduras, agindo para que a “questão Zelaya se tornasse irrelevante”.

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“Nos dias seguintes [depois do golpe] falei com meus homólogos de todo o hemisfério, incluindo a Secretária [Patrícia Espinosa] do México. Nós estabelecemos as estratégias de um plano para restaurar a ordem em Honduras e garantir que eleições livres e limpas se celebrassem rapidamente e de maneira legítima, o que faria com que a questão de Zelaya se tornasse irrelevante”.

O codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas em Washington, e também presidente da Just Foreign Policy, Mark Weisbrot, que pesquisa a região e escreveu diversos textos relacionando a responsabilidade dos EUA nos acontecimentos em Honduras, lembra, em artigo publicado na Al Jazeera e no Publico, que a história oficial, “devidamente adotada pela maioria dos meios de comunicação”, foi a de que a administração Obama era contra o golpe e a favor da volta de Zelaya à presidência.

A posição dos EUA foi ambígua, como avaliou Weisbrot, em entrevista a Opera Mundi em 2010. Ao contrário de líderes latino-americanos e organismos como a OEA (Organização de Estados Americanos) e a Assembleia das Nações Unidas, que exigiram o retorno “imediato e incondicional” de Zelaya ao poder, nenhum oficial da administração norte-americana fez qualquer declaração similar e, um dia após o golpe, jornalistas perguntaram para a Hillary se “restaurar a ordem constitucional” significava a volta de Zelaya, ela recusou confirmar.

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Camponeses protestam contra lei que hipoteca recursos naturais; legislação foi proposta por Porfírio Lobo, que assumiu o poder após Zelaya| Foto: Giorgio Trucchi/Opera Mundi

O fato é que o governo posterior ao golpe recompensou os responsáveis por este com “altos postos e ministérios”, o que abriu as portas para o agravamento da violência no país – hoje o mais inseguro da América Latina –, avalia a especialista em Honduras, Dana Frank, em artigo no site da Foreign Affairs. “A taxa de homicídios aumentou em 50% de 2008 a 2011; a repressão política e os assassinatos de candidatos políticos da oposição, organizadores camponeses e ativistas LGBT aumentaram. Os feminicídios dispararam. A violência e insegurança foram exacerbadas por um colapso institucional geral”. Além disso, aponta ela, “a violência relacionada com as drogas piorou em meio às denúncias de corrupção nos serviços da polícia e governo de Honduras”.

A resposta dos Estados Unidos diante deste cenário de degradação política e social pós-golpe – no país com o maior índice de crianças que tentam cruzar a fronteira do Rio Bravo fugindo da violência e em busca de melhores condições de vida – foi de silêncio, diz Weisbrot.

Golpe de Estado

Há, no entanto, uma informação no livro de Hillary que é contestada pelo pesquisador. Na autobiografia, é dito que o ex-mandatário foi preso – na manhã de 28 de junho, militares hondurenhos detiveram Zelaya e o expulsaram do país – por “temores de que ele estava se preparando para burlar a Constituição e prorrogar o mandato” presidencial.

Mark esclarece que tal fato nunca existiu. O que o presidente tentava era realizar uma consulta não vinculativa a respeito da realização de referendo sobre a reforma da Constituição durante as eleições previstas para novembro de 2009. De acordo com o pesquisador, Zelaya não podia se candidatar nesta eleição e era impossível a prorrogação do mandato. “Mas isso não impediu que a extrema direita em Honduras e nos Estados Unidos utilizasse as falsas acusações de manipulação da Constituição para justificar o golpe”, escreveu Weisbrot.

As declarações de Hillary, que a colocam “à direita de sua trajetória na região como secretária de Estado”, como escreve o analista, são consideradas um “cálculo político”. Apesar do possível desgaste que possa vir a ter com os líderes latino-americanos, há poucas chances disso lhe custar votos na corrida à presidência em 2016. E, além disso, o posicionamento abre uma gama de possibilidades de arrecadação de dinheiro para a campanha entre grupos de pressão direitistas com enfoque na América Latina, como os cubano-americanos da Flórida, avalia o especialista.