Governo paraguaio usa greve de fome para evitar  investigação

Governo paraguaio usa greve de fome para evitar investigação

Nora Cortiñas das Avós da Praça de Maio em frente ao Ministério. “Nem um dia mais presos”

Cinco meses após a matança de Curuguaty, que resultou na morte de 17 camponeses em junho e fomentou o argumento para o golpe de Estado que destituiu o presidente constitucionalmente eleito, Fernando Lugo, quatro camponeses correm risco de vida por manterem, por mais de 50 dias, uma greve de fome. Eles protestam contra a decisão que os mantêm presos mesmo sem provas de que tenham participado da matança.
Por Vanessa Silva 

Em uma carta aberta ao povo paraguaio e à comunidade internacional, Fernando Lugo afirma que “o caso Curuguaty é parte de uma conspiração dos golpistas, que conduziram a paródia do julgamento político que terminou com minha destituição”.
Muitas são as questões que não foram respondidas pelas investigações conduzidas pelo governo. “Tenho afirmado em várias oportunidades que este governo golpista não tem nenhum interesse nem vontade política em investigar seriamente e esclarecer o caso.” E enfatiza que: “qualquer que seja a sorte dos grevistas, a responsabilidade recairá sobre o governo golpista de Federico Franco”.

Risco de morte

Luis Olmedo é o camponês em pior estado de saúde. De acordo com seus familiares, o estado é grave. Os outros três grevistas: Lucia Agüero, Juan Carlos Tillería e Alcides Ramírez estão em situação delicada após 53 dias sem comer para exigir liberdade. Somente Lucia mantém a greve de fome. Os demais estão internados em um hospital próximo à prisão de Coronel Oviedo.

De acordo com o senador Carlos Filizolla, 12 camponeses se encontram presos sem que haja qualquer prova contra eles. “Correm risco real de perderem suas vidas. É uma situação muito preocupante”, afirmou em entrevista ao Vermelho.

Falsificação de um golpe

De acordo com o senador, a investigação conduzida pela promotoria deixa muito a desejar, “não esclarece o caso”. E corrobora a tese de Lugo: “Há uma investigação alternativa que fez um trabalho muito profundo sobre o caso e estão dizendo que há provas que revelam que foi tudo uma montagem utilizada para pedir a destituição de Lugo”. “Exigimos que a promotoria investigue como corresponde esse caso.”

De acordo com um relatório produzido pelo grupo Plataforma de Estudos e Investigações de Conflitos Camponeses e divulgado em outubro, a polícia paraguaia foi responsável pelo massacre. O levantamento está acompanhado por vídeos, fotos e declarações de testemunhas do episódio ocorrido em junho passado em Curuguaty, que desmentem a alegada emboscada camponesa, pois na recepção aos policiais estavam presentes até mulheres e crianças, além dos camponeses estarem praticamente desarmados.

Ainda segundo o relatório, o tipo de disparos, seus sons e os ferimentos por eles produzidos demonstram a utilização de armas de grosso calibre, automáticas, que nunca foram encontradas no acampamento nem apreendidas com os camponeses, que possuíam apenas velhas escopetas, e só uma delas foi disparada. As declarações de vários policiais e camponeses que sobreviveram afirmam que franco-atiradores posicionados nos arredores e não identificados começaram a disparar, causando o massacre, menciona o informe.

Bodes expiatórios

“Nós acreditamos que se trata de envolver pessoas inocentes no caso para tratar de justificar algo evidente”, diz Filizola. De acordo com o político paraguaio, a questão envolve um monte de “campesinos que sequer ocupavam essas terras em conflito. Cremos que estão envolvendo muita gente inocente para encobrir o que realmente ocorreu em Curuguaty”.

O senador acrescenta que “se trata de uma violação dos direitos humanos. E por outro lado uma insensibilidade do governo Franco diante dessa situação de possibilidade de morte dessas pessoas. Não estão fazendo as medidas que lhes correspondem, por isso o protesto. E essa repressão”.

Repressão

“Muitos setores da sociedade estão pedindo a libertação dos camponeses. Inclusive nós, da Frente Guasú. Também queremos a troca do promotor porque até o momento ele não esclareceu o caso.” Na madrugada desta quinta-feira (22), um grupo de manifestantes que acampavam em frente ao Ministério Público em Assunção foi brutalmente reprimido pela polícia local. Eles pediam a libertação dos camponeses e a continuidade da investigação.

Cerca de 40 pessoas estavam reunidas quando a polícia agiu, brutalmente, com balas de borracha, cassetetes e gás de pimenta. Os cascos azuis (tropa de choque paraguaia) não apresentaram a ordem de desocupação e confiscaram bens dos manifestantes.