Haitianos na República Dominicana enfrentam discriminação racial e lutam pelo direito de viver no país

Haitianos na República Dominicana enfrentam discriminação racial e lutam pelo direito de viver no país

Muito tem se falado e escrito sobre a sentença 0168/13, adotada em 23 de setembro de 2013 pelo Tribunal Constitucional da República Dominicana. Esta medida jurídica despoja de sua nacionalidade mais de 200 mil dominicanas e dominicanos de origem haitiana, sob o pretexto de que seus pais haitianos são migrantes irregulares que estão em trânsito no país; irregularidade que se transmitiria de pai para filho.

Por Wooldy Edson Louidor, na Adital

Esses dominicanos, que pertencem à primeira, à segunda e, inclusive, (alguns deles) à terceira geração dos migrantes haitianos, se encontram de um dia para outro sem nacionalidade, no único país que conhecem e que os viram nascer; muitos deles não falam creole nem francês, os dois idiomas oficiais do Haiti. São os novos apátridas do século 21, vítimas de uma sentença “legal”, mas injusta que, definitivamente, tem marcado um divisor de águas nas relações entre Haiti e República Dominicana, e que tem levado à chamada comunidade internacional a denunciar essa sentença “discriminatória” contra uma minoria étnica: os dominicanos afrodescendentes, filhos de migrantes haitianos.

Ante essa onda de condenações, o governo dominicano vem realizando esforços para resolver, de maneira humanitária, a suspensão da documentação de dominicanos de ascendência haitiana, por exemplo, mediante a publicação da Lei 169-14, de 23 de maio de 2014, e do Regulamento para sua aplicação (através do Decreto 250-14, de 23 de junho do mesmo ano); mas, tal como afirma o Movimento Reconhecidos, fazem falta mais ações e fatos para que essas legislações garantam um acesso real, ágil e efetivo à documentação, para quem já estava inscrito no registro civil dominicano ou quem nunca foi inscrito por esse grande muro institucional e administrativo.

Manifestação em Santo Domingo a favor da perda de direitos políticos pelos haitianos| Foto: E. Santelices (AFP)

Manifestação em Santo Domingo a favor da perda de direitos políticos pelos haitianos| Foto: E. Santelices (AFP)

O debate não é só legal, mas tem um fundo histórico e cultural complexo, que é preciso entender. Haiti e República Dominicana são dois países que compartilham uma pequena ilha localizada no Caribe. A ilha tem uma extensão geográfica de 76.480 quilômetros quadrados, dos quais o Haiti tem 27.500 quilômetros quadrados e a República Dominicana 48.440 quilômetros quadrados. O Haiti, a primeira república negra do mundo, se tornou independente da França em 1804, enquanto que a República Dominicana foi colonizada pela Espanha e depois pelo país vizinho, de 1822 a 1844. Cerca de 90% da população haitiana é negra, enquanto que os dominicanos, cujo idioma oficial é o espanhol, se consideram hispânicos e, inclusive, “índios”.

Apesar dessas diferenças, ambos os países têm muito em comum, por exemplo: uma população que é dominicana, mas que descende dos haitianos (os chamados dominico-haitianos ou dominicanos de origem haitiana). Quando os Estados Unidos da América ocuparam os dois países da ilha, primeiro, o Haiti, em 1915 (até 1934), e a República Dominicana, em 1916 (até 1924), os ocupantes “facilitaram” a migração dos haitianos rumo aos “bateyes” dominicanos, para que estes trabalhassem nas empresas açucareiras norte-americanas. Tem-se aí uma das grandes “origens” da migração haitiana, que se deu, justamente, no marco da introdução do capital estadunidense na ilha e, de fato, no Caribe e no resto do continente americano.

No entanto, apesar da grande utilidade da mão de obra haitiana para o setor produtivo dominicano, principalmente a indústria açucareira (“necessitamos deles, mas não os queremos”, reza um ditado popular), o ditador dominicano Rafael Leonidas Trujillo ordenou, em 1937, o massacre de milhares de haitianos para “dominicanizar” o país. Assim, se consolidou a ideologia anti-haitiana, que marcou, definitivamente, as pautas e as engrenagens do sistema educacional, da cultura, da classe política e intelectual, alguns meios de comunicação, várias religiões e, inclusive, as estruturas do Estado dominicano. Un anti-haitianismo “sistêmico”, “institucional”, que boa parte da sociedade dominicana denuncia e combate, a partir da sua luta por um país includente, justo, democrático e respeitoso dos direitos humanos e da dignidade humana.

Dominicanos descendentes de haitianos protestam por defesa de direitos| Foto: Efe

Dominicanos descendentes de haitianos protestam por defesa de direitos| Foto: Efe

Essa luta é contra-atacada por setores “ultra-nacionalistas” dominicanos, mas amplamente apoiada por intelectuais e organizações de direitos humanos haitianos e também por dominicanos que residem nos Estados Unidos, em Porto Rico, na Espanha, etc. A Comunidade do Caribe (Caricom), a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Organização das Nações Unidas (ONU) têm expressado, reiteradamente, seu rechaço enérgico contra aqueles atos, atitudes, políticas e decisões jurídicas de corte discriminatória, que violam os direitos dos migrantes haitianos e seus descendentes na República Dominicana. O rechaço é cada vez mais generalizado.

Um dos intelectuais que vem aportando a essa luta é Joseph Harold Pierre. É haitiano; vive na própria carne e conhece muito bem a realidade dos migrantes haitianos e seus descendentes no país vizinho. Fala do que sabe e vive. Realizou seus estudos universitários na República Dominicana, onde se graduou como mestre em Economia e licenciado em Filosofia. Viveu seus últimos 10 anos como migrante na República Dominicana, onde exerce a docência universitária e realiza uma série de consultorias para entidades governamentais dominicanas e organizações internacionais.

Este intelectual tem se destacado também por seu trabalho de mobilização e organização dos estudantes e jovens profissionais haitianos que vivem fora do Haiti, para que possam defender seus direitos e fazer algo em favor do desenvolvimento de seu país. Juntamente com outros haitianos, fundou a organização NAPSA (em creole, N ap Sove Ayiti; em espanhol, Estamos salvando a Haití), que já é uma referência para os jovens haitianos que estudam ou trabalham na República Dominicana e em outros países do continente americano, especialmente no Canadá e na América do Sul. A NAPSA vem realizando várias iniciativas, entre elas atividades artísticas, publicação de notas de imprensa, conferências de imprensa, para promover a cultura haitiana no estrangeiro e a participação dos jovens haitianos no desenvolvimento de seu próprio país.

Desde a publicação da sentença 0168/13 pelo Tribunal Constitucional dominicano, o professor Joseph Harold Pierre se dedica, intensamente, a escrever artigos em francês e espanhol, e a dar conferências em universidades dominicanas, haitianas e, inclusive, estrangeiras (por exemplo, nos Estados Unidos da América) para denunciar, com argumentos, o caráter desumano e injusto dessa “vergonhosa” resolução jurídica e, ao mesmo tempo, elaborar propostas em prol da harmonia nas relações entre ambos os países. Joseph Harold Pierre é muito conhecido no mundo intelectual haitiano e dominicano; é um dos poucos acadêmicos da ilha que conseguiu converter-se em uma referência binacional (para ambos os países), em torno das relações entre Haiti e República Dominicana. Suas opiniões, sempre ponderadas e baseadas em argumentos e fatos, são difundidas e valorizadas em ambos os países.

Aceitou conceder esta entrevista ao portal web do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), na qual nos fala dele como migrante haitiano na República Dominicana, de sua trajetória acadêmica e profissional, da situação dos migrantes haitianos e seus descendentes (em particular, a dos jovens) no país vizinho, e dos grandes desafios sobre a possibilidade de melhores relações entre ambos os povos, em um contexto histórico e atual muito complexo. Apresenta-nos também uma análise detalhada da sentença 0168/13, de suas falências e de seus impactos sobre a comunidade dos dominicanos de ascendência haitiana. Termina a entrevista abrindo perspectivas interessantes para a cooperação sul-americana com o Haiti e a República Dominicana.

Acompanhe os melhores trechos da entrevista:

Celam: Como professor universitário, economista, politólogo e conhecedor do tema das relações haitiano-dominicanas, quais são as principales falências da Sentença 0168/13? Em que tem afetado esta medida jurídica os migrantes haitianos e os dominicanos de ascendência haitiana na República Dominicana?

Joseph Harold Pierre: Antes de tudo, permita-me contextualizar a sentença. Esta última resultou de uma decisão do Tribunal Constitucional dominicano, pronunciado em 23 setembro do ano passado; tem como objetivo despojar da nacionalidade dominicana cerca de 250 mil indivíduos, cujos pais (e inclusive avós e bisavós) fizeram suas vidas no país sem um status regular. A medida surge do recurso de amparo depositado pela dominicana de origem haitiana Juliana Deguis Pierre ante o Tribunal Constitucional contra a Junta Central Eleitoral (JCE), que se negou a entregar a ela sua cédula de identidade e eleitoral. Essa decisão, que tem dividido a sociedade dominicana e comovido a comunidade internacional, sofre de algumas falências, que quero apresentar sucintamente:

1)A falência do “em trânsito”: a sentença se fundamenta em que os pais dos indivíduos afetados estavam “em trânsito”, pelo que, supostamente, não corresponde a seus filhos a nacionalidade dominicana, conforme o artigo 11.1, da Constituição de 1966. Não podem estar “em trânsito” pessoas que estão há décadas vivendo em um território. Ademais, o Regulamento, de 1939, sobre migração define “em trânsito” como a situação de uma pessoa que dura somente 10 dias no país.

2)A falência do recurso à Constituição haitiana: tem se defendido a sentença com base em que o artigo 11, da Constituição haitiana, de 1989, estipula que “possui a nacionalidade haitiana de origem qualquer indivíduo que tenha nascido de pai haitiano ou de mãe haitiana nascidos haitianos e que nunca tenham renunciado à sua nacionalidade no momento do nascimento”. Sob esse argumento, as pessoas em condições irregulares de origem haitiana, nascidas na República Dominicana, supostamente, não seriam apátridas, mas haitianas, em virtude desse artigo da Constituição haitiana acima mencionado. A falência se apoia em que a República Dominicana, sendo independente, não pode reger-se pela Constituição política de outra nação.

3)A falência da violação da Constituição dominicana: a sentença viola a Constituição dominicana de 2010 (vigente), que estabelece o princípio da não-retroatividade da lei (art.110), já que tenta aplicar o princípio do jus sanguinis (direito de sangue), reconhecido por essa Carta magna a pessoas nascidas sob outro regime constitucional e jurídico. As constituições dominicanas anteriores outorgavam a nacionalidade pelo direito do solo (jus soli), tal como plasma o artigo 11.1, da Constituição de 2002 (a título de exemplo). A sentença viola também o princípio da favorabilidade (art. 74.4), segundo a qual um indivíduo que acode a uma lei deve gozar de uma interpretação favorável em ordem à proteção de seus direitos.

4)A falência da violação de Tratados e Convenções internacionais, firmados pela República Dominicana: segundo a Corte Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH), o status migratório de uma pessoa não se transmite a seus filhos. Ademais, segundo a Convenção Americana de Direitos Humanos, os acordos da CIDH são definitivos e inapeláveis, e não podem ser revisados ao nível interno pelos países membros.

Haitianos se mobilizam por direitos| Foto: Acento.com

Haitianos se mobilizam por direitos| Foto: Acento.com

5)A falência de responsabilizar os cidadãos pelos erros do Estado: os cidadãos não podem duvidar da validade de um documento entregue pelo Estado. Assim, pois, não se pode negar a nacionalidade a cidadãos nascidos antes de 2010, inclusive se são filhos de estrangeiros ainda quando sua inscrição no Registro Civil foi realizada em condições irregulares, por erro ou inexatidão, porque não se pode castigá-los pelos erros cometidos pelo Estado (por seus funcionários ou pelo mau funcionamento de suas estruturas e dos serviços que oferece à cidadania).

Ademais, vale a pena salientar que tal sentença afeta os dominicanos de origem haitiana e os imigrantes em seu ser mais profundo. Qualquer ser humano necessita de um mundo, como diria Max Scheler, a partir de onde relacionar-se com a realidade. Os afetados pela sentença estão “inseridos” no mundo, mas não existem, porque não são reconhecidos como cidadãos, como pessoas. Ou seja, faz falta a eles um espaço que os acolha e desde o qual possam construir seu mundo, seus projetos de vida e suas relações. De um dia para outro, se esfuma esse fundo ôntico e antropológico, que necessita todo ser humano para sua autorrealização. Esse vazio criado pela sentença acarreta outras graves consequências de várias índoles. É o tema da apatridia que não constitui só um problema jurídico-legal, mas um drama humano.

Muitas expressões têm sido utilizadas para qualificar a “ignominiosa” sentença 0168/13: genocídio civil, limpeza étnico-racial, apartheid, etc. Todas traduzem, de certa maneira, os danos psicológicos, legais e sociopolíticos que causa dita sentença nos afetados. Em efeito, a sentença tem levado à marginalização dos dominicanos de origem haitiana (a minoria mais excluída do país, ademais dos migrantes haitianos) em seu nível de desumanização mais baixo. Formam um mundo à parte, sem nenhuma identidade. Enquanto que o reconhecimento do outro faz parte de sua existência como pessoa e contribui para o desenvolvimento da mesma. A privação da nacionalidade os despoja ipso facto de seus direitos fundamentais, como a educação, a saúde e o trabalho decente. Por outro lado, tem se tentado quebrar os laços de solidariedade e o sentido de pertencimento à comunidade. Consequentemente, ao encontrarem-se sem nenhum apoio social esses seres humanos poderão sofrer de neuroses tão severas, como a paranoia e a esquizofrenia.

“Viver sem pátria é viver sem honra”: esta dura frase do patrício dominicano Juan Pablo Duarte resume a situação na qual se encontram os indivíduos afetados pela sentença. Será sempre uma honra para qualquer indivíduo participar da construção de um espaço sociopolítico. Contudo, a sentença está a ponto de privar esses mais de 200 mil dominicanos do direito de participar da vida política de seu país. Agora bem, é importante ressaltar que, se a nova Lei 169-14 tenta devolver a essas pessoas a nacionalidade (status legal de membro de um Estado), mas não está fora do alcance do marco jurídico proporcionar a cidadania plena, já que uma cidadania plena ou substantiva se fundamenta no gozo pleno dos direitos civis, sociais e políticos, articulados na liberdade individual, no bem estar social e na participação política, respectivamente. A realidade desses dominicanos dista muito – e isso há já muito tempo – de esses princípios.

No nível econômico, as pessoas afetadas pela sentença serão mais frágeis no mercado de trabalho, pelo que seu salário se verá diminuir e, seguramente, se incrementarão a pobreza e a desigualdade na República Dominicana, com o agravante de que afetarão, principalmente, uma minoria étnica historicamente excluída.

Como está a situação da comunidade haitiana na República Dominicana, principalmente a dos jovens, ante esses novos acontecimentos? Quais são as principais propostas da organização que contribuíste para criar, a NAPSA (Estamos Salvando o Haiti), para apoiar, concretamente, os e as jovens estudantes e profissionais haitianos na República Dominicana?

A comunidade haitiana na República Dominicana está constituída por meio milhão de membros (500 mil) aproximadamente. Esta cifra se eleva a quase 700 mil se se somam os dominicanos de origem haitiana. Os imigrantes haitianos podem ser agrupados em cinco categorias socioeconômicas: a primeira inclui os trabalhadores dos setores agrícola e da construção, varejistas (a maioria deles vendedores ambulantes) e taxistas, amas de casa e vigilantes; a segunda é composta pelos empresários; e as três restantes são formadas por religiosos, estudantes e profissionais, e artistas.

Em termos etários, a população entre 18 e 29 anos representa 60% do total dos imigrantes, que equivale a cerca de 275 mil pessoas; pelo que este grupo é o mais numeroso. Esse dado se revela muito significativo quanto ao aporte dos haitianos a setores específicos da economia dominicana, já que os jovens trabalham em setores como a construção e a agricultura, efetuando trabalhos que requerem grande força física, e para cuja realização pessoas de outras idades são menos dotadas. Esses jovens podem ser divididos em dois subgrupos: os operários e os estudantes.

Estima-se o número total de estudantes haitianos na República Dominicana em mais de 20 mil, com base em uma pesquisa que realizei em 2012, ou seja, equivale à mesma quantidade de estudantes que tem atualmente a Universidade do Estado do Haiti (UEH). Segundo o mesmo estudo, as carreiras que mais os estudantes escolhem são a saúde (medicina, enfermagem, etc.), que abarca quase a metade do total dos estudantes; a engenharia (industrial, civil, informática, etc.), que compreende quase uma quarta parte; e ciências administrativas (administração de empresas, turismo e hotelaria), que tem 15% dos inscritos. Cabe assinalar que a medicina e a administração de empresas são os campos de estudos com maior número de haitianos no país vizinho.

Drama atinge sobretudo os jovens | Foto: Bol Noticias

Drama atinge sobretudo os jovens | Foto: Bol Noticias

A juventude haitiana não pode estar alheia ao desenvolvimento de seu país. A NAPSA nasce como um espaço de e para jovens estudantes e profissionais, impelidos pela situação do Haiti, envergonhados pela miséria do país e preocupados com seu futuro. A NAPSA quer ser uma plataforma de ação, diálogo e tolerância, a partir da qual a juventude possa participar na construção social, cultural, econômica e política do Haiti. A organização foi fundada em Porto Príncipe, em 26 de fevereiro de 2011, por um grupo de jovens profissionais e estudantes que vivem tanto dentro do país como na diáspora [no estrangeiro]. A organização consta, agora, de ao redor de 400 membros; estamos presentes no Haiti, República Dominicana, Estados Unidos, Colômbia, Canadá, Venezuela, entre outros. Atualmente, o diretório da NAPSA está formado pelos filósofos Gulin Bonhomme e Smith Augustin, o engenheiro industrial Allentz Annacacis, todos residentes no Haiti; o engenheiro Jean-Edwidge Luxama, que cursa um mestrado no Canadá, o professor Wooldy Edson Louidor que vive na Colômbia, e eu. A NAPSA convoca os jovens estudantes e profissionais haitianos a aportar a consolidação democrática, o desenvolvimento econômico e a coesão social do Haiti. Para isso, a organização cria espaços de convivência para seus membros e de integração com outros haitianos, especialmente os pobres e os campesinos. Em cada um desses países, a NAPSA está realizando um trabalho segundo o contexto, em torno de uma ou várias dessas cinco áreas de ação: a orientação acadêmica e profissional, o trabalho com os campesinos, a promoção da cultura haitiana, a incidência sociopolítica, e o acompanhamento à comunidade, principalmente o setor religioso.

Os cinco eixos de ação da organização são implementados na República Dominicana. Quanto à orientação acadêmica e profissional, durante duas vezes por ano, a NAPSA oferece um seminário de um dia sobre a realidade dominicana, o funcionamento das universidades e as relações dominico-haitianas. Esse trabalho é muito importante já que os candidatos inscritos nas universidades dominicanas (bacharéis haitianos) chegar ao país vizinho sem nenhuma orientação acadêmica. Com respeito ao trabalho com os campesinos, a organização trabalha com migrantes haitianos no sul (Barahona) e no leste (San Pedro de Macorís) da República Dominicana. Duas vezes por mês, um grupo de napsistas (membros da NAPSA) sensibilizam os imigrantes haitianos sobre a necessidade de adquirirem seus papéis de identidade. Ademais, são oferecidos a eles e elas oficinas de economia doméstica e saúde. No marco dessas atividades, a cada año, é celebrado com esses compatriotas o Dia internacional do Trabalho, em 1º de maio. No que concerne à promoção da cultura haitiana, queremos apresentar uma imagem do Haiti que seja capaz de “desconstruir” os clichês, preconceitos e estigmas que existem na República Dominicana (e em quase toda a América Latina) em torno do nosso país; inclusive alguns se atrevem a pensar equivocadamente que não há nada de bom nem de belo no Haiti. Realizamos, a cada ano, a festa da cultura haitiana, denominada “Kul’tura NAPSA” e outras atividades, como exposições de pintura, etc.

Por outra parte, a ramificação da NAPSA na República Dominicana publica, regularmente, seus posicionamentos sobre as relações entre Haiti e República Dominicana, que vêm passando por um momento muito difícil, principalmente depois da publicação da sentença 0168/13, em setembro de 2013. A organização participa, ativamente, dos processos de regularização e documentação dos imigrantes haitianos, realizados, respectivamente, pelos Estados dominicano e haitiano. Um comitê foi constituído para oferecer ajuda à Embaixada haitiana no processo de documentação. Finalmente, a NAPSA realiza um trabalho com as igrejas para ajudar os fiéis, sobretudo os jovens, a unir a ação à oração. Este último ponto se fundamenta em que os haitianos, sobretudo os pobres, são muito religiosos.

A sentença 0168/13 tem recebido uma onda de críticas não só na comunidade haitiana e dos dominicanos de ascendência haitiana na República Dominicana, mas também nos setores chamados “progressistas” do país, no Haiti e, inclusive, em nível regional e internacional. Isso abriria uma possibilidade para, de uma vez por todas, erradicar todas as formas de discriminação anti-haitiana, que são enfrentadas pelos migrantes haitianos e seus descendentes na sociedade dominicana?

Seria ingênuo crer que, com as críticas à sentença 0168/13, se desse, de uma vez por todas, a possibilidade de erradicar todas as formas de discriminação anti-haitiana na República Dominicana. É preciso analisar a estrutura social e o que eu chamaria de tendências antropológicas na República Dominicana, para ver, porque tenho sérias dúvidas quanto a essa mudança radical, pelo menos para as próximas duas décadas. Quanto à dimensão socioeconômica, a sociedade dominicana é muito desigual. O crescimento econômico estimado em 5%, que este país tem conhecido nas últimas cinco décadas – o mais alto de toda a América latina – não foi acompanhado de uma redução da pobreza na mesma proporção, já que ao redor de 40% da população é pobre. A zona setentrional, chamado El Cibao, é próspera, enquanto que o sul tem um índice de desenvolvimento humano muito baixo. Como o poder econômico determina, em uma grande parte, o status social; os imigrantes haitianos e os dominicanos de origem haitiana, dada seu pertencimento à faixa mais baixa da sociedade, serão objetos de rechaço e discriminação. Isso é uma regra geral em qualquer país muito desigual, como á a maior parte das nações da América Latina, especialmente Haiti e Brasil.

Outra explicação ainda mais convincente tem a ver com o que chamo as tendências antropológicas. A identidade dominicana se funda no rechaço ao negro. Na novela “Enriquillo”, de Manuel de Jesús Galván, a primeira que trata da idiossincrasia do país, o protótipo do dominicano é o índio. O negro não tem lugar na obra, apesar de que existe uma importante presença negra no país. Por outra parte, durante a ditadura de Rafael Trujillo e os 12 anos de Joaquín Balaguer no poder, este e outros intelectuais dominicanos se esmeraram em sentar as bases de uma identidade dominicana como branca, em contraposição com a identidade haitiana negra. Uma das consequências desse trabalho ideológico consiste em fomentar uma nova categoria étnico-racial chamada “índio”, na República Dominicana, que foi atribuída aos negros dominicanos, justamente para não usar a palavra “negro”. Esse modo de ser dominicano marginaliza os negros e os coloca em uma espécie de gueto. A sentença é uma consequência direta dessa cultura, perniciosa para o país, já que leva a que a maioria dos negros e pobres sigam tendo uma alta probabilidade de permanecer em sua condição socioeconômica, do nascimento até o túmulo.

Ao lado desses fatores internos, a deplorável situação do Haiti não ajuda em nada. Em efeito, os dominicanos se envergonham e se indignam a cada vez que recordam que um país tão miserável como o Haiti os “ocupou” [de 1822 a 1844]. Na República Dominicana, é comum justificar o tratamento a quem quer que tenha sangue haitiano em suas veias pelas condições de miséria no Haiti e pelo maltrato que certos haitianos infligem a seus compatriotas em seu mesmo país.

Dados esses fatores de injustiça e inércia social no nível interno, e a atual situação deplorável do Haiti, tomada como pretexto, não se pode esperar que os sofrimentos dos dominicanos de ascendência haitiana e dos imigrantes haitianos sejam eliminados em um futuro imediato. No entanto, como outros movimentos na história, como o de Martin Luther King nos Estados Unidos, as críticas contra a sentença podem ser um passo decisivo para a libertação tanto das vítimas como dos vitimadores. O caminho, em minha opinião, será longo, espinhoso, esburacado e pedregoso. O fim se divisa no horizonte, mas não será para nas próximas duas décadas. A cura psicoanalítica, que faz falta ao grupo de dominicanos anti-haitianos, tomará tempo e o corpo social desenvolverá fortes anticorpos contra a mesma. O desenvolvimento do Haiti terá que ter um papel relevante na mesma, já que será um catalisador que gerará uma nova percepção na República Dominicana a respeito de seu país vizinho. Sem esquecer o grão de areia que estamos aportando como migrantes haitianos na República Dominicana.

Por que vale a pena lutar por melhores relações entre o Haiti e a República Dominicana? Como os países sul-americanos poderiam contribuir com esta luta?

Acredito firmemente que, onde o ser humano estiver ele sempre pode melhorar sua vida e a dos outros. Esta é a minha convicção a respeito da realidade haitiana em geral e das relações entre Haiti e República Dominicana em particular. Vale a pena lutar porque o estabelecimento de relações harmoniosas entre dois povos vizinhos não poderá ter senão impactos positivos para o desenvolvimento integral de ambos. Os países sul-americanos tais como Peru, Colômbia, Argentina, Chile, etc., tiveram experiências de conflito com seus vizinhos. O chamado “conflito do Beagle”, entre Chile e Argentina é um entre tantos. Ainda que não seja da mesma natureza que os problemas entre Haiti e República Dominicana, estes dois países nos podem oferecer lições e aprendizagens muito valiosas para nos ajudar a melhorar as relações dominico-haitianas. Uma das tantas ações que se pode fazer para concretizar esta ajuda pode ser a seguinte: que os países da América do Sul ofereçam uma série de formações a jovens haitianos dominicanos em vários temas como resolução de conflitos e desenvolvimento econômico, geopolítica, etc., para ir fomentando uma cultura de paz e diálogo em nossos respectivos países e na ilha em geral. Também podem propiciar a integração de jovens de ambos países em iniciativas binacionais, multiculturais e pluri-étnicas realizadas na América do Sul para facilitar a criação de novas relações binacionais e a superação de preconceitos em nossa ilha, de tal modo que isto nos ajude a superar as feridas do passado comum e os impasses atuais.