Israel quer impedir reconhecimento do Estado Palestino na ONU, diz embaixador

Israel quer impedir reconhecimento do Estado Palestino na ONU, diz embaixador

Palestinos carregam ferido para fora de um centro de mídia atingido por Israel pela segunda vez em dois dias/ Foto: AP

Israel acusa o Hamas de ter iniciado as hostilidades que levaram à nova agressão na Faixa de Gaza. Mas antes que os quatro soldados israelenses fossem feridos por ataques na fronteira, uma cadeia de eventos havia sido desencadeada quando diversos civis de Gaza foram mortos. Para o embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben, estes são meros pretextos, a intenção verdadeira é impedir que a Palestina reivindique seu assento nas Nações Unidas.

 Por Vanessa Silva

Tudo teria começado em 5 de novembro, quando um rapaz de 20 anos, aparentemente doente mental, Ahmad al-Nabaheen, foi baleado quando passeava perto da fronteira. Os médicos tiveram que esperar seis horas até serem autorizados a buscá-lo e ele morreu. Depois, em 08 de novembro, um menino de 13 anos que jogava futebol na frente de sua casa foi morto pela Força de Ocupação Israelense. Assim, o ferimento de quatro soldados israelenses em 10 de novembro faz parte de uma cadeia de eventos que começou quando os civis de Gaza foram mortos.

O secretário geral da Federação Árabe Palestina no Brasil (Fepal), Emir Mourad, opina que “quando um ocupante agride e bombardeia civis da forma que está acontecendo, ele não está se defendendo, mas atacando. (…) Israel ocupa territórios palestinos há 5 anos e mantém um bloqueio indiscriminado a Gaza: econômico, social e político. A região é uma prisão a céu aberto cercada por israelenses por terra, céu e mar. Estão impedindo os suprimentos necessários e isso tem o nome de agressão para castigar o povo palestino indiscriminadamente”.

Força desproporcional

A disparidade entre as forças chama a atenção. A presidenta Dilma Rousseff telefonou, neste domingo (18), para o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, pedindo a convocação extraordinária do Conselho de Segurança da ONU para deter o “uso desproporcional da força” por parte de Israel.

Sobre isso, Mourad ressalta: “não podemos aceitar que Israel esteja se defendendo com tantas ogivas nucleares, um exército que é o quarto maior do mundo. Então eles estariam se defendendo do que e de quem? Trata-se de um uso de força totalmente desproporcional e o povo palestino tem o direito de se defender”.

Ataques deixaram, até o momento, 95 palestinos mortos

Após seis dias de ataques, até o fechamento desta edição, o exército israelense havia reconhecido a morte de 95 civis. Destes, pelo menos um terço não tinha nenhum envolvimento com o conflito, como reconheceram as Forças Armadas de Israel. No total, entre No total, são 840 feridos, incluindo 225 crianças palestinas. Do lado de Israel, morreram três civis e há dezenas de feridos.

O temor neste momento é que Israel inicie uma ofensiva por terra. Neste domingo (18), o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, afirmou que o Exército israelense está pronto para “expandir significativamente” suas operações em Gaza , elevando os rumores sobre uma possível invasão terrestre iminente do território palestino.

De acordo com Alzeben, “espera-se que se chegue a um cessar-fogo o quanto antes para evitar derramamento de sangue desnecessário” e para impedir “uma incursão terrestre que poderá causar grandes perdas, vítimas especialmente do lado palestino, que é o mais fraco e exposto”.

 Reconhecimento do Estado Palestino

As causas e motivações israelenses não estão claras. Para o diplomata, a ação israelense tem como objetivo impedir que a Palestina reivindique “seu assento nas Nações Unidas e seja reconhecida como Estado. E quer intimidar o povo palestino para acabar com a Autoridade Nacional Palestina, que está promovendo este processo nas Nações Unidas”.

A visão é compartilhada por Mourad. “Querem enfraquecer, inviabilizar as lideranças que estão com essa estratégia de reconhecimento da Palestina nas Nações Unidas, mas na ONU, o voto será da Assembleia Geral e não do Conselho de Segurança, de modo que cada país vota por si e não há vetos”.

Em Rafah, na Faixa de Gaza, palestinos verificam os estragos provocados na casa do militante do Hamas Mohammad Anu Shmala, após ataque de Israel/ Foto: Eyad Baba/AP

Assim, a grande expectativa é que o país seja finalmente reconhecido como integrante da ONU e, portanto, Estado independente. O evento ocorre no dia 29, dia internacional de Solidariedade à Palestina e, na mesma data, será realizado o Fórum Social Mundial Palestina Livre, em Porto Alegre (RS) com a presença de diversas entidades nacionais e internacionais.

Esse reconhecimento “será o começo do fim deste conflito porque o mundo irá reconhecer um direito que foi postergado durante seis décadas e que abre caminhos para uma negociação mais séria e igual entre as partes envolvidas neste processo”, avalia o embaixador.

Para Alzeben, o Brasil pode ajudar este processo “mantendo essa posição firme, clara e consciente da realidade na região; e utilizando sua influência de país amigo de ambas as partes para levar a mensagem de paz e este exemplo de convivência pacífica que é o Brasil”. Em sua opinião, a ONU deve intermediar o processo e ter uma posição firme por parte principalmente dos Estados Unidos e da União Europeia. “o mundo não quer mais ver derramamento de sangue, nem invasões e quer o fim deste conflito”, sentenciou.

Fórum Palestina Livre

“O Fórum Social Mundial Palestina Livre está sofrendo pressões de todas as partes. Dizem que é um fórum terrorista. Estão querendo desqualificar todas as ações que buscam abrir negociações baseadas no direito internacional, nas resoluções da ONU. No fim das contas, Israel não quer a paz”, manifestou Mourad.

Em comunicado publicado nesta segunda-feira (19), o Consulado Geral de Israel afirmou que o FSPL “incentiva a resistência e terrorismo na Palestina e o boicote à Israel. Enquanto lá a batalha é física, aqui nossa luta deve ser pela legitimidade de Israel como um Estado judeu”.

A propósito, o embaixador faz questão de ressaltar e esclarecer que não se trata de um evento contra os judeus e que, inclusive, “israelenses, judeus, muçulmanos e toda a sociedade civil podem participar desta iniciativa porque para resolver a questão palestina, é preciso também uma participação da sociedade civil”, enfatizou.

E acrescentou que “aqueles que não querem que isso aconteça são os que estão fazendo eco da política racista segregacionista do Estado de Israel e não representam o sentimento do povo israelense, do povo palestino e dos povos que querem paz naquela região. Só estão cumprindo a agenda de alguns fanáticos e não vão mudar o rumo deste fórum que pretende e busca a paz”.

“Os judeus no mundo precisam acordar para essa realidade. Nós fazemos um chamamento à comunidade judaica no Brasil. Conclamamos essa comunidade a lutar verdadeiramente pela paz, não a paz deste exército ocupante. Não a paz dos muros de segregação, de colonização dos territórios palestinos. É a paz verdadeira, onde o povo palestino tenha direito a seu Estado independente. Que Israel reconheça o direito dos palestinos ao retorno, conforme resolução da ONU. Agora como fazer a paz executando palestinos? Crianças, homens e mulheres? Vários povos do mundo não se alinham com essa política israelense de agressão de limpeza étnica do povo palestino. Queremos que esta guerra cesse e que se abram negociações baseadas no direito internacional. Por isso, chamamos todo mundo a participar do FSPL para levar essa solidariedade do governo e povo brasileiro e dos povos do mundo todo”, conclui Mourad.