Maduro retoma iniciativa e impede desestabilização da Revolução Bolivariana

Maduro retoma iniciativa e impede desestabilização da Revolução Bolivariana

 O governo venezuelano parece ter retomado fortemente a iniciativa após a onda de protestos da oposição conservadora nos últimos quinze dias: convocou todos os setores sociais para uma conferência pela paz – à qual só faltou a oposição conservadora – e percorreu os países do Mercosul recolhendo o apoio dos mesmos a democracia no país. Por sua vez, também anunciou uma próxima reunião da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) para conseguir uma posição comum contra as tentativas de desestabilização. Qual é a estratégia da oposição conservadora diante deste novo cenário? As pesquisas recentes mostram a rejeição da maioria dos venezuelanos aos protestos violentos que, nestes dias, estão perdendo força.

Por Juan Manuel Karg*

A reunião convocada pelo Nicolás Maduro no Palácio de Miraflores, na última quarta-feira (26), com o nome de Conferência Nacional pela Paz foi uma novidade política contundente no cotidiano vertiginoso da Venezuela neste conturbado fevereiro: representantes de movimentos sociais e políticos, religiosos, empresários e intelectuais participaram da mesma, da qual se ausentou somente a Mesa da Unidade Democrática (MUD). O amplo consenso alcançado na reunião sobre a necessidade de “pacificar” a situação política do país mostra um antagonismo claro com o ciclo de protestos de rua que têm sido realizados contra o governo nas últimas duas semanas. A oposição política, para evitar a foto com Maduro, acabou optando por não participar de uma instância verdadeiramente ampla, mostrando mesquinhez e sectarismo, e não revelando sua voz para o país – coisa que fez, por exemplo, a Fedecamaras, que inclusive teve que admitir para o país que cometeu vários “erros” no passado.

Enquanto isso acontecia em Caracas, o chanceler Elias Jaua começava, por definição política do governo Maduro, uma ambiciosa excursão pelos países do Mercosul: em apenas 24 horas, visitou Bolívia, Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil. Jaua se propôs a oferecer “informação em primeira mão” sobre os últimos acontecimentos. Na coletiva de imprensa realizada em Buenos Aires, ele detalhou o caráter pacífico de seu país, dizendo que “a Venezuela nunca fez uma guerra com outro país. Somos um país de pessoas de paz”.

A intenção do Jaua foi também detalhar o que aconteceu em contraposição às informações fornecidas pelos principais meios de comunicação internacionais, que, de acordo com a sua posição, buscam “demonizar” o governo venezuelano. Assim informou que das 14 mortes ocorridas diretamente pelos eventos lamentáveis, se estima que em apenas três funcionários policiais possam ter tido envolvimento – e que atuaram, segundo afirmou, alheios às ordens dadas, e já foram removidos de seus cargos, presos e estão sendo investigados pelo Ministério Público-. Após o esclarecimento, se permitiu dizer que “a nossa revolução tem um caráter democrático e pacífico”, e agradeceu ao governo de Cristina Kirchner pelo apoio. No Uruguai, também, Jaua caracterizou a Unasul como sendo “mais eficaz” e com um funcionamento mais democrático do que a Organização dos Estados Americanos (OEA). Os fatos lhe dão razão: em 2008 e 2010, tentativas de desestabilização na Bolívia e no Equador, respectivamente, foram contidos pela Unasul. Por isso, a Venezuela anunciou uma nova reunião para discutir a questão.

Por sua vez, os conservadores da oposição venezuelana parecem aumentar sua divisão interna. É que, após Leopoldo López ter sido preso enquanto se investigam suas responsabilidades nos acontecimentos de 12 de fevereiro, Henrique Capriles tentou recuperar espaço, especialmente por meio de aparições midiáticas. No entanto, como dissemos, Capriles evitou participar de duas convocatórias anunciadas por Maduro onde se trabalharia sobre o eixo da paz: sua ausência se expressou tanto no Conselho Federal de Governo, – onde participaram os outros 22 governadores, incluindo Henri Falcón, outro líder da oposição e governador do estado de Lara -, como na Conferência Nacional para a Paz.

Finalmente, tomamos conhecimento nos últimos dias de algumas pesquisas realizadas sobre os protestos: inquestionavelmente se revelam certos desgastes das “guarimbas” – violentos bloqueios nas ruas – como metodologia de ação de setores da oposição conservadora. O instituto de pesquisa de opinião privado International Consulting Services (ICS) qualificou em 83% o rechaço que à continuação deste tipo de protestos. Sem dúvidas, a extensão que tiveram estas ações desgastaram o método de protesto, que foi por sua vez rejeitado por uma parte da oposição conservadora como um “atalho”. Aparentemente, a decisão de retomar fortemente a iniciativa – tanto nacional como internacional – pelo governo venezuelano deixou deslocadas grande parte da “classe política” venezuelana, que também vê um refluxo nos protestos. A continuação das conversações no âmbito da Conferência Nacional para a Paz, e uma rápida reunião da Unasul, serão fundamentais para acalmar os ânimos dos violentos e derrubar por terra, finalmente, mais uma tentativa de desestabilização na história da Revolução Bolivariana.

* é colaborador do Diferente, Pero no Mucho; licenciado em Ciência Política na Universidade de Buenos Aires. Pesquisador do Centro Cultural da Cooperação de Buenos Aires.