“Novos golpes na AL virão da mídia e de grandes empresas”, diz Lugo

“Novos golpes na AL virão da mídia e de grandes empresas”, diz Lugo

O teatro projetado pelo arquiteto modernista Rino Levi, na Praça do 4º Centenário em Santo André, ficou lotado de jovens nesta sexta-feira (09/05), em sua maioria universitários, interessados em conhecer melhor o processo histórico e político que permeou os golpes militares no cone sul e o funcionamento da Operação Condor, que contribuiu para o recrudescimento da repressão no Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai.

O evento realizado pelas prefeituras de Santo André e São Bernardo do Campo teve início ontem e seguirá até domingo (11/05) abordando temas como a integração das Forças Armadas no contexto da Operação Condor; Copa do Mundo e os governos ditatoriais; o papel dos Estados Unidos nos golpes militares na região; repressão a artistas e manifestações culturais; a censura da mídia e o papel da Igreja Católica no período.

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A partir das discussões, será criado o Observatório da Democratização no Cone Sul. As exposições do seminário internacional deverão se tornar um livro com 200 páginas, que será entregue aos participantes e a escolas da região.

O painel de ontem debateu a “Luta de Resistência e a Democratização dos Países do Cone Sul” e teve entre seus expositores o filho do ex-presidente João Goulart, João Vicente Goulart, o sobrinho do ex-presidente chileno, Andre Pascal Allende, a ex-guerrilheira do Araguaia, Crimeia de Almeida e o senador ex-presidente do Paraguai, Fernando Lugo, deposto por um golpe em 2012.

Novos golpes na AL

“O objetivo do Plano Condor foi impedir toda mudança social e democrática na América do Sul e liquidar todos os movimentos progressistas em nossas mãos”, afirmou Lugo após fazer um apanhado histórico das ditaduras na região e particularmente no Paraguai, onde o ditador Alfredo Stroessner governou de 1954 a 1989 perseguindo os movimentos de resistência no país e dando as bases para o desenvolvimento de um Estado neoliberal.

Lugo alertou que Escola do Panamá, que formou os militares que atuaram nos golpes na América do Sul, ainda opera| Foto: Ivan Carlos Dias Júnior

Lugo alertou que Escola do Panamá, que formou os militares que atuaram nos golpes na América do Sul, ainda opera| Foto: Ivan Carlos Dias Júnior

Ao mesmo tempo em que hoje há um movimento favorável à integração sul-americana com a criação da Unasul (União das Nações Sul-Americanas), do Banco do Sul e do fortalecimento do Mercosul, há, na opinião do ex-presidente, uma “internacionalização da direita e da extrema direita” no subcontinente e “o desafio dos governos progressistas é conter as forças fascistas que estão se alinhando”.

“Os processos políticos na Bolívia, na Venezuela e no Equador indicam um processo de superação neoliberal, mas temos o desafio de evitar o que ocorreu de maneira grosseira em Honduras”, disse referindo-se ao golpe que em junho de 2009 derrubou o presidente Manuel Zelaya. “No Paraguai, aconteceu em junho de 2012 e quem ganhou com o golpe? Os plantadores de soja, o agronegócio. No país, há uma classe que sempre teve os grandes negócios do Estado e tem medo de perder seus privilégios. Mas o povo originário, os camponeses continuam sem-terras. Somente nesta transição morreram 138 camponeses no Paraguai”, afirmou.

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Hoje, o manual da derrubada de governos democráticos é diferente, avaliou. Para ele, “possivelmente os novos golpes não vão sair dos quartéis militares, mas das multinacionais, como a Monsanto, que financiou o golpe de Estado no Paraguai. Possivelmente não vão sair dos quartéis, mas dos meios de comunicação que nos armam e desarmam”, concluiu.

Verdadeira democratização

Com sete meses de gravidez, Criméia de Almeida foi sequestrada e torturada por altos comandantes do exército brasileiro por ter participado da Guerrilha do Araguaia entre 1968 e 1972. Ao sair da prisão, após nunca ter sido julgada, iniciou uma luta pela anistia ampla, geral e irrestrita e pelo direito de conhecer o que aconteceu com as 475 pessoas que morreram ou desapareceram durante a ditadura militar.

Mas, apesar da sentença preferida pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que em 2010 determinou que não existe autoanistia e que os militares não estão anistiados das mortes e desaparecimentos no país e que os responsáveis devem ser julgados e punidos, nada foi feito no Brasil.

50 anos ditaduras Cone Sul

Devido à lotação do espaço, dezenas de jovens assistiram à apresentação através de um telão colocado no saguão do teatro| Foto: Ivan Carlos Dias Júnior

Andrés Pascal Allende, sobrinho do ex-presidente Salvador Allende completou o balanço da herança da ditadura nos tempos atuais ao mencionar que no Chile, a Constituição vigente é a que foi feita pelo ditador Augusto Pinochet e questionou: “o que está sendo feito para impedir que ocorram novos golpes na América do Sul?”.

“Na verdade, as escolas militares seguem ensinando as mesmas doutrinas de 30 anos atrás. No Chile, os militares são obrigados a estudar a tese de geopolítica de Pinochet, então que mudanças tivemos nas Forças Armadas? Penso que corremos o risco de enfrentarmos a mesma situação de antes, basta ver o manual que está sendo implementado na Venezuela com as agitações nas ruas e o que ocorreu com o Paraguai”, afirmou.

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Diante deste quadro, se as Forças Armadas “não abrirem as portas para a participação cidadã, não eliminar seu caráter classista e não se reduzir os gastos com defesa, estaremos diante do perigo de novos golpes militares na América Latina e para fazer estas mudanças, não podemos estar sozinhos, por isso é fundamental que tenhamos unidade entre os latino-americanos”, concluiu.

*Publicado originalmente no site Opera Mundi