O governo mexicano acusado de juvenicídio: Não foi a primeira vez que o Estado matou nossos estudantes

O governo mexicano acusado de juvenicídio: Não foi a primeira vez que o Estado matou nossos estudantes

O crime brutal de Estado e de lesa humanidade perpetrado contra os jovens de magistério de Ayotzinapa, no Estado de Guerrero, que horrorizou a sociedade mexicana e provocou a indignação de milhões de pessoas em todo o mundo, não foi uma ação isolada e excepcional, uma falha esporádica do sistema, mas uma constante e sistemática política de Estado ao longo de décadas.

Por Gilberto López y Rivas, no Rebelión

Esses atos ocorreram a partir de 02 de outubro de 1968, quando o exército e forças de segurança mataram à queima-roupa um número desconhecido de estudantes na Praça Tlatelolco. A partir de 10 de junho de 1971 quando o grupo paramilitar os falcões, treinado e a serviço do Estado, disparou sem discrição contra uma manifestação estudantil pacífica nas ruas da Cidade do México. Desde a guerra suja dos anos 1970 e 80, quando o território nacional, como hoje, foi repleto de prisões e valas comuns e os militares mexicanos tiveram o macabro privilégio de inaugurar os voos da morte, técnica de desaparecimento forçado exportada pelos assessores franceses em contrainsurgência, que a partir de aviões jogavam ao mar revolucionários argelinos, durante a luta pela independência.

Ouça o programa da Rádio Maíz em homenagem aos 43 estudantes mexicanos desaparecidos:

Sendo constante e crescente não só a violência política, mas também a de caráter estrutural contra os jovens, a transnacionalização capitalista neoliberal aumentou exponencialmente. Ser jovem no México de hoje é uma condição de risco extremo. O que os monopólios da comunicação internacionais não tornam público, tão parcial que são para cobrir o México, é que, nos últimos oito anos, mais de 120 mil pessoas foram executadas extrajudicialmente, enquanto milhares sofreram desaparecimento forçado, e destes, a grande maioria são jovens e pobres.

Além disso, a maior parte das mulheres assassinadas e vítimas da violência doméstica também são jovens. A geração nascida nessas décadas de barbárie neoliberal sofre a perda de conquistas civilizatórias chamado estado de bem-estar social, o que significou uma redução drástica no acesso à educação, saúde, cultura, espaços e tempos lúdicos e a inserção trabalhista na cidade e no campo. A juventude padece, assim mesmo, das mesmas formas preferidas de exploração, ou seja, a exploração excessiva, assim como um maior grau de precarização nas condições de vida, desemprego e subemprego no âmbito do trabalho. Também foi o setor com maiores taxas de deslocamentos forçados dentro e fora do México.

Homenagem realizada em outubro aos estudantes desaparecidos Foto: Flickr/ APF

Homenagem realizada em outubro aos estudantes desaparecidos Foto: Flickr/ APF

A modificação e criação de leis para reconfigurar o Estado a serviço do capital transnacional e do imperialismo norte-americano significou, de fato, a declaração de uma guerra social assimétrica, geral e permanente contra o nosso povo, nossa mãe terra, nossa nação. “Uma guerra para que para se sustentar tem que aniquilar a juventude e fechar a porta para as gerações futuras… Denunciamos essa é uma guerra juvenicida. O juvenicídio neste sentido é mais do que um homicídio juvenil; “é quando eles tentam tirar a nossa força de vida, nossa humanidade e nossa capacidade de transformar a realidade, ou seja, a nossa juventude”.

O Estado mexicano está em julgamento por subversão do poder e ser um Estado criminoso e ser responsável perante o Tribunal Popular e os próprios cidadãos.

Texto publicado no site Rebelión e traduzido pelo Diferente, Pero no Mucho.

Originalmente publicado no La Jornada

* é político e antropólogo mexicano