Panamá realiza eleição presidencial sem questionar problemas cruciais do país

Panamá realiza eleição presidencial sem questionar problemas cruciais do país

Aproximadamente dois milhões e meio de panamenhos vão às urnas neste domingo (04/05) escolher o sexto presidente do país em 23 anos de democracia. De acordo com as últimas pesquisas divulgadas, não é possível antecipar a preferência do eleitorado, já que os três principais candidatos têm possibilidade de vencer a eleição.

Por Vanessa Martina Silva*

Com isso, aumentam as chances de que o resultado seja questionado sob a alegação de fraude, dado o tom adotado no fim da campanha e o fato de que no país não há segundo turno. Os presidenciáveis Juan Carlos Navarro, José Domingo Arias e Juan Carlos Varela,  no entanto, não divergem consideravelmente quanto ao tom programático mantendo-se à centro-direita, com alinhamento favorável a Washington.

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O Panamá possui uma das economias mais vibrantes da América Latina na atualidade. No último trimestre, seu PIB (Produto Interno Bruto) cresceu 10,7%, acima de outros países da região, como o Brasil, que teve um crescimento de 0,9% no mesmo período, e a Colômbia, de 4,2%, segundo dados do Banco Mundial. Tal situação, no entanto, não se reflete diretamente na melhoria de vida da população.

Campanha de Varela foi marcada por denúncias de corrupção e acusações mútuas com o presidente Ricardo Martinelli| Foto: Divulgação Facebook

Campanha de Varela foi marcada por denúncias de corrupção e acusações mútuas com o presidente Ricardo Martinelli| Foto: Divulgação Facebook

O país, que é o quarto mais rico da América Latina, tem a segunda pior distribuição de renda. Cerca de 400 mil panamenhos passam fome, quatro em cada 10 pessoas vivem em pobreza total e mais de 500 mil panamenhos se encontram em situação de pobreza extrema, segundo dados da ONU (Organização das Nações Unidas).

No âmbito político, é notável a influência dos Estados Unidos que, desde que o Tratado do Canal foi assinado, em 1903, tem influenciado direta ou indiretamente os rumos do Panamá. Devido à intensa atividade econômica em torno do canal, a economia panamenha se concentra no financiamento e na circulação de mercadorias, sem o desenvolvimento de uma indústria nacional.

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Apesar de uma organização sindical ter conseguido se consolidar enquanto partido político e participar da disputa, assim como os três candidatos independentes que ganharam este ano o direito de concorrer, o fato não serviu para politizar o debate eleitoral. Longe de focar os problemas para o país, como a má distribuição de renda, a melhoria da educação, o aumento dos salários ou a inflação que impacta o preço da cesta básica no país, os embates foram tomados por uma troca de acusações pessoais.

Resultado imprevisível

O analista político Edwin Cabrera declarou à Associated Press que “é a primeira vez na história recente que o Panamá vai enfrentar uma eleição em que qualquer um dos três [candidatos] pode ganhar”. Após o último debate eleitoral realizado no dia 21 de abril, meios de comunicação panamenhos avaliaram que temas que afetam os cidadãos como educação e salários não foram devidamente abordados pelos candidatos.

Navarro cresceu nas pesquisas e tem a seu favor uma campanha feita por outros partidos pedindo "voto útil" a ele contra Martinelli |Foto: Divulgação Facebook

Navarro cresceu nas pesquisas e tem a seu favor uma campanha feita por outros partidos pedindo “voto útil” a ele contra Martinelli |Foto: Divulgação Facebook

As últimas pesquisas de intenção de voto publicadas no país desenham um cenário imprevisível. A alta porcentagem de indecisos, em torno de 12,5%, reforça a percepção de que a disputa está aberta e será resolvida somente hoje nas urnas. Neste sentido, nos últimos dias, iniciou-se no país uma intensa campanha pelo chamado “voto útil” contra o candidato apoiado pelo presidente Ricardo Martinelli, Arias, e favorável ao opositor, Navarro.

O levantamento realizado pela empresa Dichter & Neira e pelo canal TVN confirma o cenário de incerteza. Segundo a pesquisa, Arias tem 35% das intenções de voto, seguido por Varela, com 32%, e Navarro, com 30%. A margem de erro é de 2,2%.

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A vantagem de Arias, que se observou durante toda a disputa, foi confirmada também pela pesquisa divulgada pelo jornal La Prensa. Pela sondagem, o candidato obteria 37,5% dos votos, tendo seis pontos de vantagem sobre Navarro e 11 sobre Varela. A pesquisa tem uma margem de erro de 1,81 ponto percentual.

Já a medição feita pelo instituto Ipsos Panamá Opina a pedido da Telemetro e La Estrella de Panamá mostra outra tendência. É a única em que o opositor Navarro aparece na frente dos demais concorrentes, com 34,2% das intenções. A pesquisa mostra Arias em segundo com 33,9% e Varela com 29,1%, com uma margem de erro de 2,16 pontos.

Reforça ainda o fator surpresa da eleição o fato de Martinelli ter levantado suspeitas públicas sobre a credibilidade do sistema eleitoral do país, inclusive questionando a imparcialidade do presidente do Tribunal Eleitoral (TE), Erasmo Pinilla. À Prensa Latina, o presidente do Colégio de Advogados, José Alberto Álvarez, afirmou que os ataques contra o TE comprometem o processo eleitoral e pressagiam a “possibilidade de fraude”.

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Genaro López, da Frente Ampla pela Democracia (FAD), e os independentes Juan Jované, Genaro López  e Esteban Rodríguez, somados, não atingem 5% dos votos.

Neste domingo estão em jogo 1.648 cargos. Além de presidente e vice-presidente, os panamenhos vão eleger 20 deputados para o Parlamento Centro-americano, 71 deputados da Assembleia Nacional, 77 prefeitos, 648 representantes de municípios, sete vereadores e seus respectivos suplentes.

*Texto publicado originalmente no Opera Mundi em 04/05/2014

** Foto em destaque: AFP