Para não esquecer: "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias"

Para não esquecer: “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”

No dia 1º de abril, completam-se 50 anos do golpe militar no Brasil. Para marcar a data, o Diferente, Pero no Mucho sugere uma série de filmes e documentários nacionais e estrangeiros que retratam este período que, por meio da Operação Condor, temos em comum com outros países da Nossa América.

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O filme O ano em que Meus Pais Saíram de Férias, do brasileiro Cao Hamburguer, mescla futebol e política, fazendo um retrato repleto de subjetividades do Brasil durante a Ditadura Militar que se instaurou no país a partir de 1964.

Abaixo, sinopse feita por Cloves Geraldo*, em sua coluna no Portal Vermelho:

Mauro (Michel Joelsas) e Shlomo (Germano Haiut) tiveram, cada qual à sua maneira, seu cotidiano invadido pela sensação de algo que incomoda, mas não sabem o que, propriamente. E, devido a isto, reagem à aproximação do outro de forma violenta. O garoto por ter sido deixado aos cuidados do avô, com o qual não conseguiu estabelecer contato, e o velho Shlomo (Salomão em hebraico) por não saber quem, afinal, ele é. Os dois se atracam ao longo de várias sequencias, até perceberem que são vítimas de algo que se passa ao redor deles, sem que saibam definir de que se trata. Este algo é a ditadura militar (1964/1985), presente nas reações, na solidão, na privação e na desconfiança de forma exasperadora.

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias trata da opressão que não se manifesta em atos, só em vestígios, revelados pela busca de contato que Mauro tenta estabelecer com o mundo lá fora, através do Volkswagen azul, que o pai, Daniel, dirigia quando o deixou na calçada do prédio onde morava seu avô. Esta espera, para ele, gera angústia, inquietação, diante de desconhecidos, enquanto ocupa o espaço, o apartamento do avô, com o qual nenhuma familiaridade tem. Ao mesmo tempo Shlomo age como um fantasma que some e ressurge sem que Mauro possa identificar seus movimentos. Tudo age contra ele. As férias dos pais que nunca terminam e as ações do velho Shlomo às vezes brutais.

Tortura não aparece, mas deixa vestígios

Não há forma mais crua de retratar a ditadura dos generais do que esta: através de suas nuances, de sua onipresença. Não está explícita nas torturas, nos aparelhos, nas metralhadoras e nos quartéis, mas na desorganização da vida do garoto, obrigado a trancar-se num apartamento cheios de móveis, vasilhas e objetos com os quais não está familiarizado. Ela, a ditadura, mantém-se submersa, oculta nos corredores, nas chegadas e partidas estranhas de Shlomo e nos olhares da garota Hanna (Daniela Piepszyk). Nada pior do que isto, a tortura se manifesta sub-reptíciamente; chega aos poucos, na vida dos moradores do prédio do bairro Bom Retiro, em São Paulo, e nas conversas dos rabinos com Shlomo, sem que pronunciem a palavra “ditadura militar”.

Quando ela chega, o faz através do universitário, Ítalo (Caio Blat), sem que, no entanto, se escancare. Assim como também fazem os que a combatiam; surgem sorrateiramente por meio de uma pichação e desaparecem. Percebe-se que se travava uma luta subterrânea que emergia através da vida de Mauro e de Sholomo. Este achado de Cláudio Galperin e Cao Hamburguer, autores da história que roteirizaram com Bráulio Mantovani e Anna Muylaert, é que desconcerta em “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”.  As ausências dos pais, a indefinição sobre quando eles voltariam e a quem recorrer denuncia mais os horrores da ditadura do que sequencias explícitas de prisão,tortura e morte. Mostra que o cotidiano das pessoas, principalmente das crianças, podia ser afetado inexoravelmente. Muitas tiveram suas vidas marcadas de forma indelével: perderam pais, irmãos, famílias inteiras sem que soubessem, no momento, por que. Inúmeras buscam, até hoje, entender o que aconteceu, pois nenhuma informação sobre o paradeiro de seus pais foi lhes dado pelos militares e pelas autoridades que os sucederam.

Feridas ainda estão abertas

As feridas continuam abertas. Quando Bia (Simone Spoladore) abraça o filho Mauro há algo que ele pergunta e ela não consegue responder. Um ser precioso para ambos ficou para trás. Neste instante, o garoto já sabia de que se tratava, estava envolto nas conseqüências da luta contra os generais; entendera que o que era sussurrado por Ítalo materializara-se nas ruas, por meio das baionetas, dos cavalos e das prisões de líderes estudantis. Mauro, inocente em princípio, cresce enquanto espera o término das férias dos pais, espécie de metáfora para os que permaneceriam desaparecidos nos porões dos quartéis da ditadura militar. Não é mais o garoto que fugia ao contato com Hanna, às brincadeiras com os amiguinhos dela e das escaramuças com Sholomo. Passou por profundas transformações, enquanto aguardava o retorno do Volkswagen azul.

Cao Hamburguer, com “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, penetra noutro mundo ignorado pela cinematografia nacional: a dos judeus do Bom Retiro (no filme, a rua Lusitânia, centro de Campinas). Um mundo em que o ritual hebreu deixa antever preocupações com os conflitos políticos e tem sua própria forma de enfrentá-los. Não se abre para o exterior, a exemplo de Sholomo, que trata de suas questões com o rabinato, mas que é aberto à solidariedade. São eles que se tornam a família de Mauro e lhe dão a devida guarida para que suporte o castigo que lhe foi imposto, por extensão, pela ditadura militar. Este mundo judaico, com suas comidas, músicas e indumentárias típicas, se revela rico e cheio de nuances que servem de proteção durante um período de exceção. Ali os termos ditadura militar e comunista surgem no momento adequado e são enfrentados sem grandes alaridos.

*é jornalista e cineasta, dirigiu os documentários “TerraMãe”, “O Mestre do Cidadão” e “Paulão, lider popular”. Escreveu novelas infantis,  “Os Grilos” e “Também os Galos não Cantam”.