Sem bandeira, panelaço reúne direita contra Cristina

Sem bandeira, panelaço reúne direita contra Cristina

Manifestante bate panela durante protesto, nesta quinta-feira (8), em Buenos Aires. (Foto: Natacha Pisarenko/AP)

Nesta quinta-feira (8), os argentinos evidenciaram a solidez da democracia no país. Mais de 200 mil manifestantes (número não oficial) saíram, pacificamente, às ruas para manifestarem-se, com o tradicional panelaço (bater de panelas), convocado pelas redes sociais e com participação majoritária de setores da classe média e alta contra políticas implementadas pelo governo da presidenta Cristina Kirchner, no ato que ficou conhecido como 8N.

Por Vanessa Silva

Como resposta, a presidenta afirmou, nesta sexta-feira (9), que o modelo que está implementando no país não vai mudar, nem seus ideais. “O verdadeiro problema é a falta de uma liderança política que represente um modelo alternativo. Sobre isso não podemos nos posicionar. Acreditamos no nosso”, sentenciou.
Diferentemente do que vem sendo dito, o protesto foi convocado pelas redes sociais, mas tem o respaldo de partidos políticos. Foram realizados atos em diversos países, como Austrália, EUA e em países da Europa. Segundo o embaixador argentino para a integração econômica regional e participação social, Oscar Laborde, em entrevista ao Portal Vermelho, “ficou claro que é uma mobilização política, mas que se esconde atrás de uma ideia de que as pessoas saíram às ruas naturalmente, quando na verdade foram organizadas por um grupo de partidos oposicionistas”.

O tamanho da marcha não o impressionou. Diferentemente do Brasil, na Argentina, assim como na Venezuela, são comuns marchas a favor e contra medidas que são propostas ou implementadas pelos governos. Para o chanceler, “essas pessoas são parte dos 46% que na última eleição não votaram em Cristina. Que bom que as pessoas se manifestam”, afirmou.

O que querem?

Os manifestantes protestavam contra: medidas econômicas, falta de liberdade, insegurança e contra a reeleição da presidenta.

Argentinos também fizeram panelaço em frente a embaixada Argentina em Roma. Protestos também foram registrados em Madri e Londres (Foto: Andreas Solaro / AFP)

Para Laborde, trata-se de um grupo heterogêneo que na verdade “quer que Cristina faça diferente do que foi prometido quando ela ganhou as eleições. Reclamam que ela esteja cumprindo as promessas. São contra que haja castigo para os que promoveram genocídios na época da ditadura, não gostam da ‘asignación universal’ [espécie de bolsa entregue aos que não têm trabalho] e que haja controle do dólar, mas precisamos de uma balança de comércio favorável, então a medida é necessária e não gostam que ratifiquemos o poder do Clarín”.

Sobre a questão da reeleição, jornais brasileiros enfatizaram o fato de que um grupo de intelectuais assinou um manifesto contra um projeto de Reforma Constitucional que permitisse a Cristina concorrer novamente à presidência (ela já foi reeleita). Sobre a questão, o político argentino esclarece que “esse tema da reeleição nunca foi proposto. Em nenhum momento se propôs a segunda reeleição”.

“O sentido desta manifestação está claro. Querem que Cristina não termine seu mandato ou que mude o que está fazendo. O interessante é que estamos de acordo com o que Cristina está desenvolvendo. Então, se eles estão descontentes, terão que apresentar outro candidato e fazer com que ele ganhe. Assim é a democracia”.

7D

Os ânimos estão acirrados no país com a proximidade do fim do prazo para que o grupo Clarín (espécie de rede Globo argentina), se enquadre na Lei dos Meios. A data limite é o dia 7 de dezembro, por isso o evento ficou conhecido como 7D.

A lei, que democratiza a comunicação — dividindo o setor em três com participação igualitária de 33% para o setor privado, 33% para meios públicos e 33% para veículos educativos e comunitários — já foi adotada por todas as demais empresas do ramo da comunicação, com a exceção do Clarín que conseguiu liminares na Justiça para manter seu monopólio.

No 7D vence o prazo da liminar que permite ao Grupo Clarín não cumprir em sua totalidade a lei sancionada, pelo Parlamento há mais de 3 anos para substituir a antiga norma que vigorava desde a ditadura. A liminar aponta para artigo 161 da lei dos meios, que obriga os grupos midiáticos com mais licenças que as permitidas pela lei, a se adequarem conforme indica a norma.

Milhares protestam em frente à Casa Rosada/ Foto:AFP

O Grupo Clarín tem mais de 240 sistemas de TV a cabo, 19 rádios AM, FM e quatro canais de TV aberta, o que configura um monopólio e uma rede nacional ilegal.

Sobre o tema e a marcha do 8N, a jornalista argentina Stela Calloni escreveu: “existem chamados de desobediência ao governo. Convocam a julgar e destituir a presidenta em termos depreciativos ou simplesmente com um breve ‘participe que ela vai embora’. São instâncias evidentemente golpistas e desestabilizadoras”.