Stella Calloni:  Chávez nos deixou o pensamento contra-hegemônico deste século

Stella Calloni: Chávez nos deixou o pensamento contra-hegemônico deste século

Nesta quarta-feira, 5 de março, completou-se um ano que o presidente venezuelano, Hugo Chávez Frías morreu, após lutar por mais de um ano contra um câncer na região pélvica. Em todo o mundo, foram prestadas homenagens ao líder da Revolução Bolivariana e para celebrar a data, o cientista político e colaborador do Diferente, Pero no Mucho, Juan Mark Karg, entrevistou, a pedido do jornal El Tiempo argentino, a jornalista e escritora Stella Calloni.

Stella conviveu com Chávez desde 1994, tendo sido uma amiga próxima do presidente. Na seguinte entrevista, ela conta relatos íntimos desta amizade, fala sobre a validade de seu legado.

Juan Manuel Karg: Você conheceu Chávez pessoalmente. Como foi esse momento e em que circunstâncias ocorreu?

Stella Calloni: Eu o conheci devido ao meu trabalho: investigo, sigo a política da América Latina. Quando ocorreu o golpe de 1992, que chamaram de “golpe militar”, eu percebi que era uma espécie de revolta cívico-militar que não tinha nenhum ponto de comparação com os nossos golpes que tínhamos sofrido nos anos 1970 no continente. Primeiro porque o comunicado de Chávez, que foi escondido pela imprensa, argumentava que o Exército não tinha porque reprimir seu povo, que tinha que fazer mudanças fundamentais para modificar a trágica situação que vivia o país, com 80% de pobreza. Quero dizer, era um manifesto revolucionário do ponto de vista dos exércitos da América Latina. Este comunicado foi escondido, e me chamou muito a atenção porque eu o recebi e disse: “não, isso não é tão simples”.

Como reagiu?

Chávez saiu da prisão rapidamente e não poderia falar por causa de um acordo que tinha feito com o governo. Logo foi percorrer o país. É então que vou para a Venezuela, e ele dá a sua primeira coletiva de imprensa. Ele o faz já como dirigente do Movimento Bolivariano Revolucionário 2000, mas não esperava neste momento chegar à presidência, nem qualquer coisa assim. Ele compreendeu que eles precisavam se organizar politicamente e começou a fazê-lo e isso foi crescendo. O primeiro indício que eu tenho desse crescimento é que quando o entrevisto, ele me pede para que eu o acompanhe até um lugar que ia. Esse lugar onde hoje está seu túmulo, ali no Quartal da Montanha, no bairro 23 de Enero em Caracas, que tem uma população muito lutadora. Então, quando chegou lá, quando eu ia pela rua, as pessoas muito humildes corriam enlouquecidas para o automóvel. As pessoas o rodeavam como se fosse um irmão. Me disse: ‘este homem tem um carisma e uma liderança óbvia’. Claro que quando disse isso na Argentina me diziam: ‘que horror’. E eu respondia: ‘Por que não se informam de que não há nenhuma relação com o que foram os golpes na Argentina?’.

Chávez foi o defensor de um projeto socialista da pátria venezuelana| Foto: Referencial

E depois?

A realidade foi aparecendo. Tudo muda para Chávez quando ele é recebido por Fidel Castro. Em 1994, ele não tinha sequer tem um grande movimento organizado. Mas Fidel se informou muito a respeito de quem era este homem. Eles se entenderam maravilhosamente bem. As pessoas também entenderam que, se Fidel o recebia era porque não era um ‘gorila militar’. O próprio Chávez me disse em uma entrevista, a primeira que eu fiz com ele: ‘eu sei o que é ser gorila, e é isso que nós não queremos ser’. Os militares que estavam com ele, o seu grupo, me surpreendeu. Todos grandes leitores. Ele pertenceu a uma geração de militares que entraram no primeiro Plano de Andrés Bello, que era para formar uma outra visão militar, mais humanista, educativa. Foram beneficiados: foram para a universidade, e ali estudavam as matérias sobre a América Latina. Este grupo começou a lutar pelos direitos humanos dentro do próprio exército, para que não se impusessem esses castigos terríveis que costumam aplicar aos soldados.

A partir de então, te considera sua amiga.

Eu me sinto muito honrada de que ele me considerava assim. Ele o disse um dia no Canal 7. Eu estava sentada em uma mesa e ele disse: ‘ali está Stella, ela estava nos acompanhando quando não éramos ninguém’. Poucas pessoas fazem isso, poucos presidentes se lembram disso. Ele nunca se esqueceu daqueles que o acompanharam no início.

Qual é a importância de Chávez na integração continental que vive nosso continente?

Chávez era como um motor. É o primeiro destes governos que cria esta ideia. Juan Domingo Perón já havia defendido a necessidade de nos unirmos. Chávez foi tomando aos poucos, uma vez no governo, defende essa nova Constituição e novas relações internacionais. Então começa a defender a unidade da América. E nisso chega Nestor Kirchner em 2003. Ele começa a falar com Néstor e se dá conta de que terá uma companhia muito grande. Ele me disse, em 2006, uma das pessoas que mais ajudou aqui no continente foi o ex-presidente Kirchner. Ele me disse em 2006 que um dos que mais o ajudaram aqui no continente foi o ex-presidente Néstor Kirchner. E me disse: ‘por favor, te peço, isso é off the record porque se disser isso na Argentina vão cair em cima dele. Estas coisas posso te contar agora, mas não as disse naquele momento porque obviamente eu cumpro as coisas e um of the record é precisamente isso. Jamais trabalharia para minar ninguém,  sou parte de um jornalismo de outra geração, que respeitava os códigos, e Chávez gostava muito disso.

Homenagem cívico-militar a Chávez nesta quarta (5)| Foto: Correo del Orinoco

Que coisas deixou como ensinamento sobre a gestão do governo ?

Eu acho que ele deixou em vigência várias coisas. Que você não pode ficar com as mãos atadas. Se você não tem um meio, saia falando com um megafone, assim fizeram as mulheres quando ficaram sem luz nos bairros quando foi dado o golpe de Estado de 2002. As mulheres pediram megafones, saíram e começou a gritar: “é preciso descer, é preciso descer’. Foram as mulheres nos morros as principais cabeças da mobilização que voltou às ruas e que marcou o começo do fim do golpe, que durou apenas 48 horas. É para ter em conta isso que ele dizia: atuar rapidamente, não se deixar estar, não perder tempo. Olhar o que o outro quer fazer para que você esteja preparado. Que não não te encontrem dormindo. Há um ditado na América Central: ‘crocodilo dorme, acorda carteira’. Chávez sempre o dizia. Não dormir. E a outra coisa é a forma como ele enfrentou o problema da burocracia. A burocracia era terrível. No Ministério da Educação, ele tinha que alfabetizar as pessoas com urgência. Era indispensável fazê-lo para os projetos da própria Constituição. Ele fez algo extraordinário: percebeu que com o Ministério não poderia realizar a alfabetização. Então criou a Missão Robinson para poder fazê-lo com alfabetizadores que percorreram a Venezuela. E a missão Bairro Adentro, de saúde. Ele montou centros de saúde em todo o país, com consultórios em locais onde antes as ambulâncias não chegavam. Também a Missão Voltem Caras para resolver o problema daqueles que não tinham trabalho. Depois criou os mercados populares (Mercal e Pdval). Os beneficiados por Chávez foram os milhões que saíram das ruas para se despedir dele.

Quando foi a última vez que você falou com ele? Como você avalia o primeiro ano do governo Nicolas Maduro , especialmente a sua resposta nas últimas semanas ?

Falei com ele da última vez que ele veio a Buenos Aires em 2012, quando já havia sido operado a primeira vez. Depois falei por telefone antes de viajar para Cuba. Foi uma conversa muito linda, de memórias. E também falamos sobre a necessidade de proteger os nossos governos. Nunca os partidos políticos da direita latino-americana foram tão financiados pelo exterior como neste período histórico, com o financiamento de organizações não governamentais (ONG).

Ele mesmo mesmo nomeou Maduro como chanceler.

Sim, claro, as pessoas se surpreenderam muito neste momento. Mas foi um aprendizado que Maduro fez: ele era muito jovem, conheceu todos os presidentes, foi formado e resolveu questões. Note que você não pode substituir uma figura como Hugo Chávez. E ninguém acha que vai substituí-lo. Maduro porque essa figura é enorme. São figuras imensuráveis, quem poderia substituir Fidel Castro? As coisas podem continuar andando, mas essa figura é insubstituível em muitas coisas. No contato com a população, por exemplo. Eu acho que, apesar disso, Maduro está bem. Ele o demonstrou nas últimas semanas: não se deixou levar pela tentação de responder aos ataques. Ou vamos acreditar que aqueles que saíram às ruas para destruir a sede da empresa de energia elétrica, ou os que tentaram queimar duas vezes a casa de um governador?

Qual foi o legado mais importante de Chávez ?

– Deixe-me concluir: Chávez ensinou a audácia revolucionária. O “Alô presidente”, por exemplo, o colocou em contato com o seu povo, porque ele não tinha nenhum meio de comunicação no país que não mentisse ou deturpasse informações. Percorreu o país com aquela voz, expondo as mentiras diante de sua população. O que mais nos ensinou foi sua coerência. Nos deixou o grande pensamento contra-hegemônico deste século. Fazer o que faz falta com base em nossa própria realidade e em nossas próprias necessidades. O Socialismo do Século 21 é o nosso socialismo, dos nossos princípios. Chávez nos mostrou um caminho, se não o vemos é porque estamos cegos.